domingo, 31 de julho de 2011


Dança do Vaneirão do Pacoval






Abraçando a água
Um jeito menino
De o rio montar
 transpor o vedado
Pisar outros lados
E o caminho achar

Contraponto é jornada
No canto de guia
Dos pontos do vaneirão
O fluir e o refluir
Na linha d’água
Como na dança
De com
No jeito de mãos

Balançando a cabeça
Encontrou o roçado
Que se punha isolado
Dessagrando a margem
Duma imensidão

Viu a moça de fita
Com a beleza mais rica
Sobreornando o lugar
Desembocou num olhar
De um momento fincar
A lança do amor no peito seu

Escolheu ficar
Ao alcance dos olhos
Que lhe punham amor
Dela fez seu par
Na noite que era festa
Para o povo dançar
No molejo de vaneirão

 











Terra do Meio











Sabemos da vida
O que desconhecemos
É nossa maior sabedoria
Afastados habitamos
Misturando com a beleza
Do lugar a nossa
Identidade de pessoa
A pessoa exercendo
No cenáculo
Um jeito de limitação
Que têm estesia
Na simplicidade
Embriagada do lugar
Da nossa identidade
Firmada no olhar

Somos Povo do Meio
Cravando vontades
Imbricados em modos
E medos, em alegrias
E fazeres aprendidos
De pessoa a pessoa
Nos gestos e risos
Em lutas e lampejo
Ouvindo e falando
Do que lembramos
E do que legamos
Pessoa a pessoa


O que nossas mãos
Tocam nos libertam
Da fome, da tristeza
Do impedimento
Não existimos senão
Em nossa vida
De pessoa a pessoa
Do meio, no fim
Do mero jeito
De começar e continuar
Nosso modo de viver
E ser pessoa da pessoa













Copacabana






Serviram teorias e erudições
E o encanto de algum poder
A mesa era posta para todos
Os dias não tinham pudor

Vieram sem afeição no olhar
E nem ouviram um cantar
Pois simplicidade e caminho
Pareciam coisa de outro lugar


Ofereciam o mundo
E se ofereciam a ele
Como se os modos
Saíssem sozinhos
E pudessem se separar

Omissão e timidez entregadas
Nos corredores como sinais
Igual o pouco da mão que educa
Esquecendo o feito que vive


Meus passos caminharam
Por uma Copacabana fria
Em direção contrária
Por entre Carvalhos e Pinheiros
Ao lado de um Mago, um Antônio
O companheiro novo
E a força dum Paraíba
Meu irmão











Mosqueiro






A luz se jogava
Fora da tarde
A beleza vestia
Simplicidade
Para se entregar
Aos teus olhos

Tons e sobre tons
Escorriam pelo verde
Até o fusco
Na maré

O breu se colocava
Devagar na noite
Para a lua brincar
De luar e os teus olhos
De colher estrelas no céu

Um caminho de luz
Sustinha flutuando
Teu corpo navegando
Ondas de quase mar

E o riso embriagado
No teu rosto festava
Junto à noite
E à imensidão


Da boca cuspias
Mordaças
Selando juras
Enquanto um sentimento
Cuidava a madrugada

No ar
O perfume da tua pele
Espargia
E dançavas nua
E única
Por entre os versos
Que o poeta sonhava
Esquecendo
A carne trêmula
De tuas vestes

 

 

 

 

 

Recife






 
Capibariei
E beberiei
A saudade

Salguei os
Meus olhos
Manguezei
E a lama
Foi tua falta


Suassurrei
Que te amo
Pra todos
Do são josé

Palafitei
E não fui rei
sei que olhei
Os joãos e a grei


Sem lua
Me enlameei
De maria
E com o tanto
Que te lembrei

 











Calçada da Perebebuí






Meu coração
Quase explodiu
Quando ela passou
Carregando as cores do Brasil
No jeito de olhar
Mostrava os mares
E os lugares
Onde sempre é carnaval
Suas mãos
Dois amuletos
Soltando jeitos
Dos pés dançar
O relance do primeiro olhar
Bastou pra magia entrar
No meu coração
Foi assim que elegi
Essa tal de Marion
Cabrocha primeira
E dama sestreira
Do samba de roda
Que agora virou moda
Nas calçadas da Perebebuí

 

 











Amargura da Língua
De um mote de Paulo Fraga e para ele






Um poeta acadêmico
Saiu na sacada da frente
Olhou pra esquina da rua
E viu o povo adjacente

Não mostrou seus versos
Amestrados noutros modos
Não podiam saber entender
Receitava seus arrogos


Um país de iletrados
Não merece meu poema
Pensou, prezou e entrou
Pra dentro da sua cena

Um poeta do povo
Parou no momento da esquina
Nos seus versos de verdade
Recitou seu modo e rima


Não deixou nenhum passante
Sem lembrar alguma estima
Em seu modo postulante
Escolheu matéria-prima

Um país tão judiado
Carece do meu poema
Pensou, bradou e fincou
A vida em sua cena


Amargura da nossa língua
No jeito de dois irmãos
Um exprime tão claro
O outro não tem noção

 











vai o Enoque






Magrezas esqueléticas
Um corpo encurvado
 Para frente dos braços
Estes bem compridos
Equilibrando o movimento
Desequilibrado
Porque balançava muito
Convertendo o traçado

Como cortes vinham
Da boca apodrecida
 Palavras aos tamanhos
Não poupava ninguém
Assim andava pela rua
Gesticulando conversa
Como escandindo poema
Parecia uma navalha
Modo de corte
Modo de torto
Enfermo sido sempre
vai o Enoque
Passante
Passando

 












Fábrica de olhar
Para Dra. Quinan






A doutora chega em casa
Com seus vidrinhos
De misturar amor
Neles molha a agulha
E costura o olhar
No nariz de palhaço
Muitos por dia
Um por um, todo dia
A doutora descansa
Fabricando olhares
Das suas mãos saem
 Lúdico, lúcido, louco
O olhar do palhaço
Que desconfunde
A verdade da mentira
E a mentira da verdade
E tem cor de cheirar
Nas pontas do instante
A imensidão das pessoas
E deixá-las trocar
O místico da alegria
Pelo imponderável da dor

Enquanto fabrica
Muitos por dia, todos os dias
A doutora unge sua verdade
E no nariz de palhaço
Coloca a vida do olhar


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