segunda-feira, 1 de agosto de 2011



Baia de Guajará – primeira travessia



Sensação de mundo
De imensidão
Os dias doíam
A água era o chão

O barro agarrava
Como saudade
E a noite sentia
A primeira verdade

O mais rústico
Pôs-se no olhar
O cansaço
Desejou se largar

Emoção de aldeia
Tantos sons no ar

Começar de novo
Renascer, sonhar
Engenhando a vida
No novo plantado
Lambendo as feridas
Do velho lembrado




Tucuruí


Fugindo para perto
Do inimigo talhado
No verde que o verde
Serviu camuflando

Uma cerca no rio
Qual fundura nova
O leito queria
Seria uma cova?
Assoreado não podia
Mas foi como ficou
O verde sumiu no verde
Quase ninguém notou
Durou pouco o ditame
E deu-se a confusão
Pensavam em provimento
Tirando com muitas mãos

A memória se guardou
Em todo durante tempo
O incerto não temido
Esperou o tormento
E o certo destemido
Executou seu momento



Apartório

Foi que misturei meu suor
Na solidão que me freqüentava
Em todos os dias sonhei
E me vi em tamanhos
Vivificando lonjuras

Foi que aprendi a saudade
E garrear meu destino

A lindeira que dividia
O poeta do obreiro
Presenciou meus medos
E abafou as batidas
Do abandono na minha porta

Foi que construí o caminho
Com o que me sobrou no andar
E tudo que não sonhei, é verdade;
E o que mais sonhei
É o que hoje me reparte



Serra do Navio


O corpo desenhado
Na janela do trem
Estampando
Imaginação
E lembrança

Acreditei real
O teu andar
Em minha direção
Andar de espera
Não de procura
Me sabias teu
E eras minha
Desde uma esquina
Onde não te notei
Desde o silencio
Que acreditei
Desde o começo
Que não me lembrei



Marabá

Foi martírio
Boca de mata
Cruzamentos
Chico das cobras
Água no peito
E o bochorno tonteando
As bordas do rumo
O olhar de nível
E o suscetível
Grudando no barro
E na fornalha
Dos peixes
Enchendo quintais

, era de ouro
foi dos cristais
Lugar tão mestiço
De águas e nichos
E muitas mulheres
De olhares mortiços
Desluzindo verdades
Por entre a calamidade
Juntando mortais

E no silvo do ouriço
O encardiço do corpo
Coberto de noites
Descobrindo no léu
Do pensamento
Um jeito sedento
De pensar amor



Macapá
Para Joãozinho Gomes


Nosso sonho trago
No traço de aqui chegar
Embalado em noites e dias
Um rebento esperado

Tudo de pequeno
Que semeamos
Nosso maior tamanho
Cantou nossa verdade

E agora alastra pelos rios
Pondo sinal de rumo
Nos caminhos
E varações

É assim, meu poeta
Que traçamos o risco
Simplicidade e entrega
Nas veias do sangue
De nossos versos
De rimas ajuntadas
Ao imenso que esta por vir
Construída hora
De agir e reagir




Rio Branco


Um rio medido
Em sinais de maternidade
Decerto uma reunião
De parteiras na sombra
Da gameleira
Combinando aparar
Raimundos para o mundo
Um rio medido
Em sinais de maternidade
Decerto a união
Da seiva das mãos
Com casca de seringueira
Combinando separar
Os seres da servidão

Um rio medido
Em sinais de maternidade
Cantando o profundo
De sua história
Ventre e vertente
Do seu povo
Escolhendo a nação

O rio medido
Põe-se em meus olhos
Acreando meu coração
Em cada curva
A saudade judia
Trançando sua falta
Nas notas desta canção





Porto Velho


Esturro silencioso
Esbanjando rebojos
Perfumando o ar
Vestindo a mulher ausente
Que na lembrança mora

Madeira desce madeira
Despe meu olhar
Fincando nos olhos
A imensidão
Ferindo o tempo
Da minha angústia
Limpando as terras caídas
Que tenho no coração

Segue, segue...
Em harmonia, ramaria
Bracejando lentas
Entre estridor
E raízes gemendo
Incendidas de embriaguez
Dançando nos cantos das margens

Revejo o Madeira
Descendo madeira
Emoldurando em seus mistérios
A sensual mulher ausente
Bramindo curvas
No desenho do pensamento
Entre meu olhar e o rio




 Noite Goiana






Saudade por todos os lados
Num silêncio taciturno
Quebrado por latidos longínquos
Lembrando quintais
Um sinal de estrelas
No céu embalsamado
Sobre os telhados
Na noite que nunca dorme
Um vento frio me toca
Numa espécie de abraço
Um cheiro de madrugada
Vem misturado com o teu
Na noite goiana
Viajo pela ausência
E te entrego meu pensamento
Adormecendo devagar
Em troca do instante
Dou o passado inteiro
E a sonolência envolve
Tua presença distante
Então amordaço o corpo
E meu sono é teu


Nenhum comentário:

Postar um comentário